FINALIDADE: RESENHA SOBRE CAPÍTULOS
MATÉRIA: FUNDAMENTOS DE FILOSOFIA
DATA: JUNHO DE 2019
A
água como objeto, não de guerra, mas de disputa de uma nova
concepção de sociedade
O
vasto e complexo debate acerca das questões ambientais figura como
um ponto de partida para a necessidade de uma análise ainda mais
profunda. Essa abordagem sistêmica, necessariamente
interdisciplinar, nos coloca diante do desafio de problematizar o
nosso atual modelo de sociedade – estruturado por uma economia de
mercado global capitalista.
Para
isso, é imprescindível pensarmos como ao longo da história a
relação entre o ser humano e a natureza foi se transformando, a
medida que se transformaram também os paradigmas de pensamento e
organização social. Possibilitando, dessa forma, discutirmos como
chegamos à iminência de escassez, ainda mais acentuada, do
principal elemento da natureza, não só para a vida dos seres
humanos, mas para o funcionamento de todos os ecossistemas.
A
Idade Moderna, comumente estudada a partir das Grandes Navegações e
do Renascimento Cultural na Europa, para nós, latino-americanos,
representou na verdade o extermínio dos povos originários, que, às
duras penas, ainda lutam em 2019 pelo direito de viverem em suas
terras. No final do século XV e através dos séculos seguintes,
aqueles que não foram dizimados foram catequizados e escravizados,
assim como os negros e negras trazidos/as a força do continente
africano para servirem como mão de obra de um modelo de exploração
que abriria os caminhos para o capitalismo.
Foi
nesse período que a acumulação de riquezas criou as condições
necessárias para as recém-formadas potências econômicas que, mais
tarde, protagonizariam a revolução industrial. Esse passado, ainda
presente em suas reminiscências, que destruiu muitas vidas, também
condenou uma cultura que oferecia uma maneira completamente diferente
de pensar a relação com a natureza.
Para
além da importância de traçarmos esse apanhado histórico conciso,
somam-se a esse processo outros elementos que devemos lançar mão
para pensar no problema ambiental, que é, na verdade, o problema da
desigualdade social promovida pelo acúmulo de riquezas, que
concentra na mão de poucos o lucro em detrimento da miséria e da
falta de acesso a direitos fundamentais de muitos.
Maude
Barlow, ativista canadense e co-fundadora do projeto Blue Planet, que
luta de forma obstinada pelo direito humano à água, em “Água
Futuro Azul – Como proteger a água potável para o futuro das
pessoas e do planeta para sempre” – um dos seus livros sobre
o tema – nos alerta para as consequências das escolhas políticas
e econômicas na história recente dos países desenvolvidos e os
aponta como responsáveis pelo cenário mundial em que
“aproximadamente 3,6 milhões de pessoas morrem todos os anos de
doenças relacionadas à água” (2015, p. 19).
Como
defende Barlow em sua obra e sua prática, a água está inserida na
terceira onda dos direitos humanos fundamentais, o que significa
dizer que, aos diversos pontos de vista sob as quais podemos conduzir
esse tema, soma-se o direito como maneira de abordá-lo. Nesse
sentido, o direito tem se tornado, principalmente após decisões
importantes de órgãos que compõem as Nações Unidas, uma
estratégica ferramenta de garantia de acesso não só à água
potável, mas também ao saneamento básico.
A
garantia a esse direito perpassa a compreensão de que a falta de
acesso a ele implica na não garantia de outros vários direitos
humanos fundamentais. Através desse ponto de partida, uma longa luta
foi travada até que a Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2010,
adotasse a resolução compatível com esse entendimento.
No
entanto, como Barlow também defende, o sistema econômico
responsável pela disputa da água como um recurso sobre o qual
grandes empresários podem obter lucro é incompatível, não só com
a lógica não ocidental eurocêntrica a qual adotamos enquanto
colonizados, mas também com uma relação mais harmônica com a
natureza de forma geral.
Embora
estudos revelem que os países, estados e municípios que se
propuseram a negociar a administração de bacias hidrográficas
tenderam a acordos pacíficos, a lógica de mercantilização da vida
aponta para uma conjuntura insustentável a curto prazo, se a
produção em larga escala e concentração de renda e recursos
seguirem na mesma linha e ritmo. As reflexões levantadas pela autora
e a contextualização brevemente citada nos permitem pensar que vai
na contramão do capitalismo o acesso igualitário, a exemplo do que
a história nos mostra.
Michael
Lowy, importante pensador marxista contemporâneo, talvez tenha as
pistas para onde deveríamos olhar mais atentamente. Ao propor um
outro modelo de sociedade, pautado no ecossocialismo, ele nos mostra
que o paradigma capitalista coloca constantemente em contradição a
forma como usamos o nosso meio e sobrevivemos dele e a sua existência
para as próximas gerações, bem como para outras espécies.
Nesse
sentido, de apontar caminhos, é simbólico que na última eleição
presidencial do Brasil uma mulher indígena tenha participado da
disputa como candidata à vice. A luta intermitente dos povos
indígenas nos dá exemplo de uma outra perspectiva de relação do
seres humanos com o meio. Não sem o engajamento individual e
coletivo na longa caminhada ainda a ser percorrida para que não
somente a água, mas a natureza como um todo não sofram ainda mais
com a ganância alimentada por uma lógica predatória.

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